Mesa redonda 08/2014
Mesa Redonda Paulínia 2014 – Por José Geraldo Couto, Cid Nader, Marcelo Miranda e Sérgio Alpendre
Após o fim da 6ª edição do Paulínia Film Festival, quatro amigos se reuniram virtualmente para conversar, com informalidade, sobre os nove filmes brasileiros vistos em competição. Entre mortos e feridos, o saldo do festival permanece discutível.
Primeiramente, creio que esta discussão será mais produtiva se ficarmos apenas nos nove longas da competição brasileira. Por isso, pergunto a vocês: essa seleção nos diz alguma coisa sobre o panorama recente? Essa amostra do cinema mais mainstream, em contraponto a de Tiradentes, nos revela o quê?
Boa tarde a todos. vou começar respondendo sucintamente a pergunta do Sérgio: eu considero a seleção de Paulínia bastante representativa do cinema que se produz no país hoje e numa faixa intermediária entre, de um lado, os mais radicalmente independentes exibidos em Tiradentes e, de outro, o cinemão de grande público geralmente sob a chancela da globo filmes.
Concordo, José. E me pergunto se essa linha representa o que de mais interessante tem sido feito. Por mais que eu tenha gostado só de três filmes entre os nove, a seleção me pareceu mais interessante que a da mostra mineira.
Pegando carona no Zé Geraldo, também penso a seleção desta verdadeira retomada de Paulínia como um "meio do caminho" que tanto se tenta no nosso circuito. Não tem nenhum filme profundamente "autoral" ou "difícil" (talvez, no máximo Castanha, e mesmo assim com chaves relativamente fáceis de assimilação), ao mesmo tempo em que todos buscam encontrar uma voz própria, até mesmo dentro do mais puro mainstream (Boa Sorte).
Sérgio Alpendre
Acho que essa linha é boa, Marcelo. Castanha num extremo, Boa Sorte no outro, mas ainda dentro de uma proposta intermediária de cinema
No meu caso, não sei se a comparação com Tiradentes (e estamos falando da Mostra Aurora, certo?) é muito válida, ainda que possível, claro. Porque lá existe uma curadoria muito forte do Cleber Eduardo e do Francis Vogner que pensa os filmes no conjunto, enquanto Paulínia é um festival que tenta criar canais de diálogo mais populares mesmo, olhar pro aspecto mais comercial dos filmes.
Não só da Aurora, Marcelo. Mas também daquela que pega trabalhos autorais não inéditos.
Penso que todos os filmes exibidos poderiam ter uma boa carreira comercial, encontrar os seus públicos, se nosso mercado não estivesse tão aviltado – e o público tão acomodado.
O Zé toca numa questão que eu acho incontornável: a total discrepância entre o que vemos, escrevemos, comentamos, publicamos nos festivais e aquilo que chega, de fato, ao circuito.
Mesmo um filme como Boa Sorte, com todo o apelo (Jorge Furtado no roteiro, Deborah Secco no elenco, trama muito próxima de dramas americanos, etc etc) sai de lá aplaudido quase de pé e não encontra espaço. Quando um filme desses estreias?
A História de Eternidade ganhou um monte de prêmios, saiu em tudo que é jornal e site, e só estreia no ano que vem, quando todo o frisson acabou.
O problema de nosso circuito já não tem mais resolução, creio. Mesmo filmes de autores consagrados ficam fora do circuito. Não tivemos o último do De Palma, por exemplo. Os brasileiros felizmente têm mais chance, mas são pouco vistos, justamente por conta dessa acomodação que o José mencionou.
Pois é. Isso é desanimador. Mas talvez não seja o caso de entrarmos nessa discussão aqui, para não perder de vista os filmes em si.
Acho que só eu tenho sérios problemas com A História da Eternidade, não?
De todos da competição de Paulínia, creio que o que mais conjuga as características que falamos acima é o da Juliana Rojas, Sinfonia da Necrópole. O que acham?
Foi o que mais me agradou, pelo frescor, pela ousadia e pela leveza. Mas não tenho grandes problemas com a A História da Eternidade. Pelo contrário, achei um belo filme.
Me surpreendi com Castanha, e creio que Infância é o trabalho de um diretor experiente reencontrando seu caminho. Sobre o Sinfonia, achei que as músicas atrapalham. Elas não "adicionam", como as do filme do Caetano Gotardo. Creio que só no número dos zumbis ela conseguiu uma integração interessante. Foi o único número musical que não me afastou do filme.
É, isso concordo, as músicas do Sinfonia não fazem diferença enquanto música. Mas acho que o fato de a Ju escolher contar parte do filme musicalmente é que guarda algo mais especial.
Mas talvez um certo afastamento fosse deliberado.
Acho deliberado, sim
Aliás, eu tenho problemas em classificar o filme como "musical", porque realmente não acho que seja.
O maior problema é com as músicas, que são fracas. Também não o considero um musical.
Achei interessante a música ter esse efeito oposto ao que acontece no O Que se Move. No filme do Caetano, a música joga a gente dentro da tragédia. No da Juliana, ela traz distanciamento e ironia.
Acho que ele tem cenas musicais, mas não chega a ser um "musical".
É na verdade um encontro entre diversos gêneros. Uma espécie de inventário, mais ou menos na linha do que foi Bang Bang.
Exato. E isso me parece muito estimulante.
José, meu ponto é que esse distanciamento seria muito mais feliz se as músicas fossem boas, como as do O Que Se Move. Como as músicas são fracas, com letras igualmente fracas, esse distanciamento se dá de uma maneira prejudicial à fruição. Comigo aconteceu isso pelo menos
Pode ser. É algo a ser levado em conta.
De todo modo, esse inventário de gêneros é algo por si só estimulante. Até mesmo a maneira como os funcionários do cemitério agem como funcionários de uma delegacia, e o delegado foi representado por um ator muito bem escalado, que valoriza o personagem. Esses acertos me encantaram.
De todo modo, concordo que é um filme até certo ponto frustrado, no sentido de que não é tão "redondo" como os do Caetano Gotardo e do Marco Dutra.
Acho Trabalhar Cansa mais redondo. E mais ainda O Duplo, da Juliana. Mas curta é outra história.
Sim, concordo.
Sérgio Alpendre
A questão é: estamos ali vendo na maioria cineastas em início de carreira. Como torcemos para que exista bom cinema, acredito que haja sempre uma tensão na primeira vez que vemos os filmes. Essa tensão, comigo, aumentou nesses filmes que se apresentaram inicialmente como de grande ou certo potencial (caso de História, Infância e Sinfonia, Sangue Azul e até mesmo do Casa Grande). E no caso a tensão aumentou demais com A História da Eternidade, porque eu realmente gosto daquele começo. Mas a partir do clipe de "Fala", o filme parece se afundar nesse desejo de se mostrar como genial, um trabalho de um diretor autoconsciente demais de sua carreira premiada e tal.
Tudo isso me incomoda no filme. No da Juliana e em Infância, essa tensão vai diminuindo na medida que os filmes foram se revelando mais fortes ao meu olhar. Não sei se isso acontece com vocês, mas imagino que sim.
Acontece algo parecido.
Discordo dessa percepção sobre o A História da Eternidade. Pra falar a verdade, acho que desde o plano inicial existe uma grandiloquência assumida e consciente, que a meu ver o filme trabalha ao seu favor.
Sim, há, de fato. Mas acho que depois essa grandiloquência abafa o drama.
Penso parecido com o Marcelo. Acho que o filme tem uma grandiloquência deliberada, uma tentativa de captar a grandeza física e metafísica do sertão.
Acho que o Camilo Cavalcante cria um tipo de sertão meio novo, mais mítico e fabular mesmo, muito por conta da maneira como ele articula os elementos dentro do plano (o formato scope incrementa isso, claro)
Acho que ele articula bem os vários dramas (três focos narrativos, a bem da verdade).
O clipe de "Fala" me pareceu aquele momento em que o diretor ficou esperando os aplausos do público, o que de fato aconteceu. Mas creio que eu teria a mesma impressão se tivesse visto o filme em casa.
Pois é. Ver em festival distorce um pouco a percepção. Você meio que se vacinou, Sérgio. Eu, não. Me emocionei pacas com aquela sequência, e também com a declamação do poema do Torquato Neto.
Ver filmes em festival tem dessas coisas, a recepção influi na percepção, eu acho. O exagero de aplausos ao "Fala" me incomoda, mas não chego a não gostar da cena por isso.
claro que influi. estou consciente disso. Mas tenho notado essa autoconsciência em muitos filmes brasileiros que vejo em casa, sozinho.
E o desenrolar dos três focos narrativos, a forma como eles correm em paralelo.
Só não gostei mesmo da forçação de barra da "Pietá". Já tinha havido uma cena linda de avó e neto, quando ela cobre o corpo seminu dele.
Sérgio Alpendre
Ah, sim… essa cena me confirmou impressões que eu tive ao longo do filme, que, para mim, é todo construido em cima de forçações de barra.
Algo que me encanta no filme também é um diálogo com a literatura latina, que não é explícito, mas está lá, em especial Juan Rulfo e Ariano Suassuna, com algo de Márquez. E isso está não apenas na temática, mas na forma, acho que o Camilo dá uma cara a esse tipo de escrita, é como se o filme pudesse ser um livro, mas escolheu nascer filme (o Bazin já falava isso de alguns filmes).
Em compensação, há uma coisa que eu acho bacana. nos filmes que relacionam sertão e cidade, geralmente a vingança é algo que vem do sertão e acompanha o sujeito na cidade. no filme do camilo é o contrário: é a cidade que vai acertar contas com o garoto no sertão. Bem apontada essa proximidade com o universo do Rulfo e do Ariano, Marcelo.
Eu acho a cena do "Fala" mal filmada, com aquela câmera girando, e o Irandhir está numa performance um tanto boba.
A performance do personagem é meio uma imposição do jeito dele, do artista rebelde (aí eu acho que existe um clichê na caracterização, mas não na encenação).
Acho que nos dois, Marcelo. Aliás, o Irandhir está fraco nesse filme. E eu admiro muito esse ator. Talvez seja o melhor de sua geração.
——————— (Cid Nader entra na discussão) ————————–
Saí com sensações ruins, mas quando escrevi vi que gostava mais do filme.
Não sou tão severo com relação ao filme e nem à atuação do Irandhir, mas vocês estão me convencendo de que há algo de afetado em ambos.
Também não gosto do Irandhir no filme.
Eu também não gosto tanto do Irandhir nesse filme. Acho que ele está sendo… Irandhir. E isso começa a se tornar um problema quando você pensa na trajetória dele.
Acontece praticamente com todo ator que cresce demais.
Porque ele é desses atores hipnóticos por natureza, e há um risco do encantamento puro. Que aliás deve ter impregnado o júri
Não duvido que se fosse um ator desconhecido nessa cena-clipe do "Fala" a plateia desse risada no lugar de aplaudir daquele jeito.
Acho que não haveria aplausos sem o Irandhir mesmo não. O público ali aplaudia o ator da novela das seis, o ator do Tatuagem, até o ator do Tropa de Elite 2, mas não o personagem nem a encenação.
Talvez, se não fosse o Irandhir, se preservasse uma certa ambiguidade, quer dizer, uma cena ao mesmo tempo sublime e ridícula.
Mas acho que é um filme que trabalha bem os signos do sertão – aqueles do imaginário, do mito – mas com uma certa aproximação da cidade, isto é: o sertão está isolado pelas ações de suas pessoas mas não tão mais fisicamente.
Mas na prática é um dos papéis em que o Irandhir está menos fora de si. A Maria do Rosário Caetano destacou na atuação dele as duas cenas de ataque epiléptico, mas sinceramente não acho que isso dignifique um papel.
Tudo isso meio que nasce de nossa expectativa. Esse é um momento de explosão, que ou nos arrebata ou nos afasta. A mim, afastou.
Também acho. Mas voltando ao Irandhir, penso que há duas coisas a observar naquela cena: a ideia de criar um estranhamento em relação ao ambiente; e a remissão ao cinema do Glauber, com a câmera girando.
Isso concordo com o Zé Geraldo. A cena é feita pra engrandecer, mas não acho que está ali à toa.
É verdade, José. Mas o Glauber seria bem mais selvagem.
Seria.
Porque Glauber era Glauber. O Camilo está impregnado de um tipo de cinema de hoje e tem o Irandhir em cena, e tem ali uma certa reverência também.
Sim, esse é um problema. Nosso cinema ficou mais domesticado, mas steadicam do que câmera na mão. sem querer entrar no papo da "cosmética da fome" da Ivana Bentes.
Ele está lidando com a mitologia do sertão nordestino, daí a reverência. Ou a referência, porque ainda não estou certo de que ele homenageia o Glauber. Ele disse isso em debate?
Mas é verdade que remete ou tenta reverenciar o Glauber. O Irandhir já pode ser visto como um mal? Quer dizer: neguinho quer fazer filme "cult" e chama ele?
Penso que ele deve ser bem dirigido, só isso. No caso dessa cena do História da Eternidade, parece que o Camilo disse: "vai lá, ter o seu grande momento".
Exatamente, José. É isso que me incomoda
Ali e na estranha e canhestra música.
Podemos falar de Castanha, o último filme que vi. Me pareceu um filme de momentos dramáticos fortes, que quando vai para o cotidiano do personagem se enfraquece. É legal a demolição da fronteira entre ficção e documentário, mas o lado documentário sai perdendo, porque o diretor é um esteta, para o bem e para o mal
Minha relação com Castanha foi esquisita, porque ao mesmo tempo em que gostei de ter visto, no dia seguinte mal me lembrava, e quando rolou a premiação eu tinha esquecido de vez até alguém falar dele.
Doc ficcional ou mais para híbrido?
Híbrido, Cid.
É híbrido como O Céu Sobre os Ombros?
Dois personagens muito curiosos, José. O transformista e sua mãe, representado o dia a dia deles, mas com toques de ficção.
Só não é "docudrama", pelamor, como disse o Rubens Ewald na apresentação. Isso, Zé Geraldo, tem algo do filme do Serginho Borges. Inclusive na abordagem de uma "marginália" urbana a que o filme dá espaço e encenação.
Só que Castanha tem planos mais pensados. É todo mais pensado na mise en scène. De todo modo, são filmes que devem ser vistos.
Castanha talvez me incomode levemente no estetismo, mas precisaria rever pra pensar melhor isso.
Acho que o estetismo combina com o lado mais melancólico do filme.
Quero ver a gente falar do Sangue Azul!
Esse me deixou indiferente quase o tempo todo.
Acho bem a cara do Lírio Ferreira: dispersão, algumas imagens muito fortes, uma ou outra epifania.
Desgosto bem – bem mesmo – mas me impressiona com todo aquele início, pelas imagens.
Só que acho que nesse o Lírio se deixou seduzir demais pelo paraíso.
E esse deslumbre enterra o filme
O filme me transmite uma ideia muito forte de sedução, no sentido de cada plano ser pensado para causar algum estupor que, no fundo, não diz nada.
Pode ser. Mas eu gostaria de ver de novo. Tive prazer ao assisti-lo.
E honestamente, eu não aguento mais cenas de banho no mar como metáfora de renascimento, limpeza da alma, recomeço, etc etc. Especialmente quando filmadas como se fosse a primeira vez que alguém faz isso.
É verdade, Marcelo. Acho que foi o filme mais sem sal do festival, enquanto outros tiveram sal a mais (o do Camilo, por exemplo).
Ele passa e isso me incomoda porque só me causa desgosto, e não raiva, por exemplo.
E tem algo no filme que acho estranho nos simbolismos também, que é a coisa do sexo efetivo entre os irmãos apenas poder acontecer na limpeza da alma, enquanto o sexo "sujo" do resto do filme (suruba, sexo gay, etc etc) acontecer em terra firme, quase sempre às escuras.
Tenho uma inclinação mais receptiva que a de vocês. Tendo a gostar, a me envolver, a dar todas as chances ao filmes.
Acho que isso vem de cada um, José. De nossas vivências. O importante é sermos fieis com o que sentimos. cada um tem sua linha e sua maneira de se envolver e querer mais do cinema. Os textos é que importam, e ainda que eu sempre queira saber se o crítico gostou ou não do filme.
A gente vive num mundo em que a intolerância ao outro (nem vou dizer ao pensamento do outro, que aí seria otimismo) atingiu níveis perturbadores. E isso resvala no exercício crítico, sem dúvida.
Acho essa ideia de natureza, instinto, etc etc, para "justificar" o sexo entre irmão, meio velho e simplista.
Tem razão, Marcelo. Mas a cena do sexo gay, com o marido da moça local enrabando o fortão do circo, é muito boa.
Acho que pode ser um filme que capture pelo início – e daí a entrar e comprar, bem aceitável.
O que me incomoda é o todo dela, o geral, a maneira como ela está inserida no filme.
Há algumas coisas no filme do Lírio que são bem de patota, de brodagem. como as cenas entre o Pereio e o Ruy Guerra.
Acho o Pereio um desastre no filme. Mas gosto do Ruy Guerra.
Mas são personagens quase redundantes.
É, essa coisa da patota me lembrou a cena do karaokê no Sinfonia da Necrópole, uma cena totalmente "inútil" ao filme, mas que entra meio como frescor e só funciona melhor quando se conhece pelo menos a Sara Silveira (mas tem vários da turma ali no fundo). A cena do Sangue Azul com Pereio e Ruy Guerra é mais mítica
Pois é. Há esse desejo de ser mítico, de dizer: "olha só, estou colocando juntos dois ícones do cinema novo, 50 anos depois de Os Fuzis".
Eu fiquei impressionado com a interpretação da Caroline Abras.. Ela está cada vez melhor como atriz. E concordo com isso de serem redundantes, e com a referência a Os Fuzis. Nem me incomoda tanto, mas isso está no filme, sem dúvida.
A Caroline Abras é excelente sempre, acho um lamento ela não pegar mais papéis, não aparecer mais. Não sei se tem a ver com a agenda dela (ela faz TV?) ou desinteresse e desatenção dos diretores mesmo.
Concordo. Ela é o máximo.
Já o Daniel de Oliveira acho que está em chave totalmente automática.
Totalmente. Em compensação, Milhem Cortaz conseguiu sair da chave automática com esse filme.
Sim, conseguiu.
Ele é um Zampano muito interessante.
Boa comparação, José. Acho que se o filme não incomoda é muito por esse trabalho com os atores: Guerra, Cortaz, Abras, Sandra Corveloni.
Mas a Sandra Corveloni também está entrando em chave-modelo de ser sempre a mãezona. Um colega meu sugeriu que o filme seria ousado de verdade se invertesse os papéis, colocando a Sandra Corveloni como a veterana meio perdida do circo e o Pereio como o paizão que cuida dos filhos na ilha.
Com relação ao elenco, há algo curioso nesse filme. Na contramão dos filmes pernambucanos recentes, o Lírio chamou quase que só atores do sul/sudeste, falando com sotaque aprendido.
Acho que se não me incomoda, nem que seja por conta dos atores, é complexo: o Festival de Paulínia, mesmo entre os filmes de que mais gostei, não teve nada que me movesse de verdade, "me incomodasse".
esse teu amigo seria bem vindo como diretor
Ah, isso sim. Nenhum filme de Paulínia toca "feridas", mas acho que tem a ver com perfil do festival mesmo.
Pois é.
Também acho. Nada especial apareceu por lá, infelizmente.
Mas muita gente saiu de lá falando em grande safra do cinema nacional.
A safra era boa, no geral, sim. Você deve estar se referindo a uma matéria do Luiz Zanin no Estadão, que exaltou os filmes em detrimento de uma suposta mediocridade do cinema brasileiro. Mas aí é a visão dele, não acho generalizada.
Queria saber o que acham da cena do mergulho no Sangue Azul.
Apenas um institucional da National Geographic.
Vocês detestam, eu sei, mas gostei – talvez tenha sido inocente na avaliação dela.
Nem chego a detestar a cena, Cid.
Eu não detesto a cena, só que eu realmente não a entendi pra além da beleza do lugar. Deve ser alguma incapacidade minha.
Eu, que mais reclamei da seleção, achei melhor que a de Tiradentes. Que tirando os veteranos, Tonacci, Rosemberg e Ricardo Miranda, não teve nada que me entusiasmasse minimamente.
Aí dá briga. Tem o do Adirley.
Acho que o filme do Tonacci tinha que passar em todo e qualquer festival de cinema este ano. Tipo regra da Ancine.
No aspecto de "tocar em temas candentes", talvez o filme de Paulínia que mais se aproxime disso seja o Casa Grande.
Casa Grande me incomoda pelo engessamento de algumas falas. Aquela cena do debate das cotas é a pior coisa do filme.
Eu gosto do Casa Grande no todo, mas me incomodo em momentos.
Casa Grande me surpreende por me fazer achar um filme se salvando pelas atuações, mas fica nisso pra mim, principalmente as atuações dentro do lar – mais complexas e completas ao que o trabalho propunha.
O melhor é o burlesco que aparece de repente, na queda do Marcelo Novaes, e na interpretação dos atores.
A cena dos debates das cotas é controversa. O Fellipe Barbosa, diretor, comentou comigo sobre ela. Disse que no exterior também gerava reclamações.
Me incomoda demais toda a relação entre os ricos (alienados ou do mal) e os pobres (todos justos, inteligentes, do bem).
Eu não gosto da cena das cotas, mas acho que tem ali uma consciência de estar encenando um teatrinho de opiniões, bem típico dos nossos dias. Só que eu acho mal encenada, simplesmente.
Esse mundo maniqueísta irrita demais.
Acho que o filme se passa nessa cena da menina discursando sobre as cotas. Aquilo explicita de um jeito ruim uma tensão social que bem podia ser mantida em surdina.
Também acho que a construção dos ricos e dos pobres é discrepante de um jeito que não faz bem ao filme.
Mas não achei estereotipados os personagens ricos e pobres, não. Gostei do filme como um ritual de passagem do garoto, meio como o de Eles Voltam.
Enquanto ele retrata a burguesia com ironia e sutileza, vai bem. Quando precisa justificar até mesmo o Severino ter processado os patrões, vai mal.
Concordo contigo, Sérgio.
Zé, pensei no Eles Voltam também. Acho filmes bem próximos.
Está explicado o porquê de eu não ter gostado. rs
Bom, eu gosto do Eles Voltam e gosto do Casa Grande, embora sejam filmes bem diferentes entre si.
Acho que Casa Grande é o melhor que se consegue chegar num drama de situações cotidianas e urbanas que tem irmãos aproximados no O Som ao Redor, no No Meu Lugar e até no Doméstica.
Essa necessidade de justificar personagens em suas atitudes mesquinhas joga contra o filme. A própria encenação leva o filme para um lado observacional mais sutil. O Som ao Redor consegue deixar coisas nas entrelinhas. Não é tão maniqueísta. Todos ali têm seu lado ruim, não são exemplos de conduta, nem tiranos.
Pode ser, Sérgio. Talvez os diálogos pudessem ser mais elípticos, lacônicos.
Os pais do Casa Grande poderiam estar na reunião de condomínio do filme do Kleber Mendonça.
José Geraldo Couto
Bem notado, Marcelo.
Casa Grande talvez seja discursivo demais, dotado de uma vontade louca (e compreensível) em colocar tudo pra fora. O problema disso é virar Sergio Bianchi. Acho que Casa Grande está longe disso, claro. Mas o risco existe.
No lar há bela composição e execução.
Mas ainda é mais sutil que o Bianchi. E há que notar que é o primeiro longa do cara.
Acho esses pais mais nobres, enquanto aquela reunião era muito classe média. Classe média que está ausente em Casa Grande, porque eles vão do luxo à falência, mesmo que não assumida.
É, eu me referia à maneira de pensar, de olhar o outro, de enxergar a classe baixa.
Aliás, já não gosto da reunião do condomínio no filme do Kleber Mendonça. Quanto mais lembro dela, mais me incomoda. Tem a ver com o maniqueísmo que vemos nas discussões políticas recentes, e com a estrutura do filme, dentro da qual aquela cena parece deslocada.
Não acho O Som ao Redor a obra prima das obras primas, mas a reunião é um achado.
Eu gosto muito da construção dos ricos em Casa Grande. De todos. Já dos mais pobres tem, como o Sérgio apontou, um peso de má-consciência às vezes incômodo. Existe carinho e afeto, claro, mas só isso, os empregados não têm muitas nuances. Até acho que é proposital, já que temos o ponto de vista do garoto, que enxerga os pobres com olhar mais ingênuo, mas mesmo assim tem um curto-circuito ali.
Mas eu acho a cena final (não sei se pode ter spoiler) muito boa: o garoto tem que sair do seu mundinho pra conseguir comer a empregada, que não é mais empregada.
Acho boa também, José.
Eu gosto do desfecho também, isso de ele conseguir a grande primeira conquista sexual dele com a ex-empregada.
Esse lance do ponto de vista do garoto é interessante, Marcelo.
E gosto de como o filme deixa tudo em aberto, inclusive sem dar resolução ao "sumiço" do garoto.
Tem um questionamento da própria visão limitada do garoto em certo momento do filme: quando ele acha que a garota mora na Rocinha só por causa do ponto em que ela desce (e da cor da pele, claro).
É verdade, e as cenas no ônibus são bem filmadas. Ele usa os olhares de maneira bem interessante. tanto os olhares dos dois principais quanto os de quem está em volta.
Isso mesmo, Sérgio.
Sérgio, o ponto de vista do garoto é uma questão abraçada pelo filme, mas eu acho que é um tanto desequilibrado, o que pode ter a ver com ser mesmo um primeiro longa trafegando por ruas meio arriscadas.
Curiosidade: o Fellipe Barbosa me contou que, em vários festivais que ele foi, nenhum público riu na cena do falso sequestro. Só no Brasil que ele viu aquelas gargalhadas, e ele ficou um tanto chocado. Eu comentei acreditar que tinha a ver com um julgamento do público, um olhar de classe para o patético dos ricos, algo que é muito forte aqui.
Mas o público de Paulínia ria de tudo, né?
Eu achei mal filmada à beça essa cena do falso sequestro.
Eu confesso não saber o que falar dela porque de fato as risadas me dispersaram. Escrevi do filme e nem comentei essa cena por incapacidade.
Eu entrei num modo autista. nem percebi as risadas.
Acho que tem ali um tom de patético que pode chegar ao humor, mas não acho que seja uma cena exatamente engraçada.
Mas acho que é pra rir mesmo. Porque todo mundo passou por algo parecido, e é um riso de alívio também. Eu mesmo mandei tomar no c* de madrugada um cara que se passava por meu filho sequestrado.
Aliás. a menina é potente: a personagem é boa demais, sem "aparecer" demais
A Anna Muylaert é que fez um filme inteiro estendendo aquela cena (risos). (N.E.: Chamada a Cobrar).
Um filme bem ruim, aliás.
A garota do Casa Grande é a única personagem no filme com alguma consciência do entorno dela, eu acho.
Mas tem uma coisa de que gosto nessa cena: a reação do pai e da mãe. A mãe desesperada porque julgava ter ouvido a voz dele, e o pai com mais frieza. Mas a câmera fica na irmã por um bom tempo, enquanto devia deixar só na mãe e no pai. A garota devia aparecer menos nessa cena do falso sequestro.
Acho que não: talvez seja o momento dela na ideia do diretor.
Pode ser. Ela é a mais consciente de toda a situação.
Também acho a presença maior dela muito importante naquela cena. Porque ela sabe que aquilo ali é absurdo, a cena é quase o ponto de vista dela.
É verdade. estou revendo minha opinião.
Ela já tinha tentado falar em vários momentos do filme, e ninguém ligava pra ela. isso acho um bom achado do roteiro.
Os únicos que a escutam somos nós.
E a câmera. De todo modo, goste-se ou não, é um filme instigante, que gostamos de discutir. Isso importa. Eu não gosto, apesar de ver bons momentos.
E é bom lembrar que ela sabe das visitas do irmão ao quarto da empregada, sabe onde o pai esconde dinheiro, etc etc. Ela é uma instância onisciente.
Isso é muito verdadeiro. O filme cresce nos momentos em que se manifesta pelos detalhes, de modo indireto.
Podemos passar ao Infância? Domingos voltando à forma? Um presente a Fernanda Montenegro, velha dama do teatro brasileiro, não?
Taí um filme que caiu pra mim drasticamente no dia seguinte.
Rapaz, pra mim ele se mantém com o mesmo "frescor".
Infância teve um efeito de ser prazeroso na fruição, mas no fundo um tanto tolo, não sei.
Dentro do habitual desleixo formal constitutivo de seus filmes, esse é um dos menos desleixados, e dos que convivem melhor com esse certo desleixo. É um divertimento, Marcelo. Uma pequena peça bem ao gosto do diretor.
Isso.
Tem até o plano dos pés, à Manoel de Oliveira.
Concordo com o Sérgio. Para mim, o ponto fraco do filme são os atores mirins.
É verdade. Mas não chegam a obstruir o que o filme tem de bom: a crônica familiar.
Eu gosto do filme, gosto dos personagens, do ritmo, da construção do espaço. É, de fato, um Domingos menos preguiçoso do que o habitual.
Tenho a sensação de um filme muito numa zona de conforto, o que de fato é a onda do Domingos Oliveira nos últimos tempos.
Mal comparando; lembra o modo de recontar da vida do Eu Me Lembro, do Navarro.
Acho Eu Me Lembro um passo para trás na carreira do Navarro, que se recupera com o longa seguinte, O Homem Que Não Dormia.
Mas o mundo do Navarro devia ser mais amalucado.
São todos uma espécie de Amarcord.
Eu já confundo os filmes recentes do Domingos, misturo cenas, não sei se vi esse ou aquele… Mas de qualquer forma, o Infância meio que resolve problemas dos outros filmes.
Como sempre nos filmes do Domingos, há uns diálogos de gente grande, personagens críveis, cheios de arestas. Isso, a meu ver, é muito legal.
Só acho que o Domingos escapou do habitual desleixo com as imagens.
Concordo, José. E não acho tão na zona de conforto assim. Acho até arriscado em alguns momentos, como naquele plano em que a câmera vai olhando para o chão até chegar aos personagens que conversam. É como se ela quisesse observar todo o caminho do jardim, os pormenores do piso.
Por outro lado, uma ou outra escolha eu não entendo exatamente, como a conversa diretamente com a câmera no comecinho, para falar de uma personagem secundária, e isso não ser de muita utilidade. Apenas uma gracinha.
Gosto muito dessa gracinha, Marcelo. Acho que só o Clint foi melhor nesse truque de estilo. O Scorsese, a meu ver, se deu mal no último filme.
É um pouco uma assinatura do Domingos.
O que é a assinatura, José? O olhar para a câmera?
Verdade, Zé. Talvez por isso, de ser assinatura, me pareceu entrar à fórceps. Mas não acho ruim.
Essa brincadeirinha dos atores falarem com a câmera, criando um efeito ao mesmo tempo de distanciamento e cumplicidade.
No fundo parece unânime que é um filme agradável, né? O que ficou patente é que o júri de Paulínia não gostou. Não que importe, mas foi algo.
Pois é. Nem para premiar a Fernanda.
Fiquei até pensando: será que o júri ignorou deliberadamente o filme porque o Rubens Ewald fez um lobby ostensivo por ele?
É possível.
Também acho que o Rubens pode ter prejudicado o filme.
Não acho que a Fernanda deveria ser hors concours. Ela está excelente e devia ser premiada.
Devia, sim. Não faz sentido o prêmio para as três atrizes de A História da Eternidade.
E nem gosto sempre dela: estava impecável nesse.
Seria errado se dessem o prêmio para ela por uma atuação rotineira ou fraca.
Ela arrebenta. Por isso digo que foi um presente para ela. Era o texto certo para que ela o representasse. Um texto muito bom, aliás
No fundo eu concordo tanto com vocês sobre a Fernanda que por isso falei que nem devia concorrer, mas vocês têm razão.
Tenho vários senões ao final, bem tosco em comparação ao resto do filme.
Tenho um bloqueio com finais de filme. Algo psicanalítico. Como acaba o Infância mesmo?
Com o próprio Domingos encontrando o menino e dando lições de arte, falando dos livros, filmes…
Ah, é mesmo. Final bem fraquinho, meio matado.
Destoa do restante do filme inclusive pela fotografia estourada. Parece que ele quis acrescentar depois, sem a mesma equipe, num processo mais mambembe, como ele vinha fazendo antes.
Mas, de resto, no cinema brasileiro dos festivais, raro ver alguém que não esteja querendo dizer coisas por subtextos, subcamadas.
Nem acho raro, Cid. Mas acho que o filme vai numa toada de leveza que realmente contrasta com a média.
É verdade, Sérgio.
Nos festivais que frequento, sim, rs. Todo mundo é "cabeça", referente, reverencial.
Acho mais que todo mundo quer chocar, romper limites do bom mocismo. Pelo menos em filmes para festivais.
Tem coisas (referências, subtextos) que cabem em certos filmes, em outros não.
Falta falarmos de Boa Sorte, o filme do Murilo, Neblina.
Não gostei de nenhum dos três, Sérgio.
Então estamos de acordo. Alguém gostou e quer defender algum deles?
Tô bem.
Acho Boa Sorte particularmente fraco, bem fraco, não sei se tenho algo a acrescentar.
Boa Sorte é aquele produto equivocado que busca abertamente um diálogo mais massificado e não se resolve em quase nada.
O melhorzinho, a meu ver, é o do Murilo. O personagem é um patife interessante, e faz parte desse 'work in progress' dele.
Aquele malandro me irritou bastante também. E esse lance de procurar personagens interessantes para um documentário revela que na verdade se pode encontrar muito mais personagens desinteressantes
O filme do Murilo Salles, Aprendi a Jogar com Você, eu não gosto também. O cara é legal, mas a maneira como o filme se estrutura eu acho bem ruim, na verdade meio covarde. Acho que o filme sofre o mesmo do anterior, Passarinho lá de Nova Iorque, que é tentar tirar das imagens o pitoresco, o engraçadinho, do dia a dia daqueles personagens, fingindo um naturalismo no registro que claramente não existe.
Concordo. Mas por que covarde?
Falo "covarde" porque o filme do Murilo nunca deixa que os personagens de fato existam no plano, ele sempre corta para mostrar alguma outra ação engraçadinha, uma depois da outra, porque importa menos as pessoas em si do que o jeitinho como elas levam a vida.
É o que penso dos cortes
Acho sintomático, por exemplo, que o único momento em que a câmera deixa o personagem existir de fato é um momento de total, completa e assumida mentira (o telefonema, já no epílogo).
Estamos de acordo em relação a isso.
Boa. Vocês estão me fazendo lembrar do filme, que eu tinha apagado quase completamente.
Essas conversas são boas para isso, José.
O "covarde" também serve pra pretensão do filme de ser "direto" (cinema direto) quando, na verdade, é pura construção, acho que existe um processo de vampirização daqueles personagens. Isso já rolava no Passarinho lá de Nova Iorque, que passou em Tiradentes e é muito parecido. Um dado extra filme, mas curioso e que é público, é que o Murilo Salles não participou das filmagens.
Hum… disso eu não sabia.
Isso, ele só montou.
Com a Eva Randolph.
e orientou…
Ah, é. Num determinado momento o personagem diz: "fala lá pro Murilo isto e aquilo".
É verdade, tinha apagado esse filme da memória. Aliás, foi o primeiro que vi em Paulínia.
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E com isso se encerra a mesa redonda sobre o 6º Paulínia Film Festival. Outras mesas virão. Boa leitura a todos.
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